Ser triscado…

Entidade surgida no processo criativo do espetáculo vin\co.

Logo nos primeiros dias úteis de 2019, depois de alguns dias de repouso, retomamos, no dia 7 de janeiro, as pesquisas e experimentações para o espetáculo vin\co.

Os encontros, nesses dias, acontecem no espaço Instrumento de Ver. Um galpão que nos proporciona a estrutura e a privacidade necessárias para esses primeiros encontros de retomada de trabalho, onde, mais que pensar em estruturar o espetáculo ou trabalhar as coreografias ou estruturas de improvisação visando a construção de cenas, retomamos visando um trabalho de sensibilização dos intérpretes, de conscientização de algumas chaves para lidar com os materiais que estamos buscando e com os quais já estamos lidando e sentindo necessidade de entender, aprofundar, fortalecer. Coisas como:

  • a presença do intérprete, sua segurança, sua autonomia;
  • o foco (olhar) como condutor do olhar do público, como orientador da tridimensionalidade do espaço da cena e como deflagrador de texturas, sensações, relações, etc;
  • A musicalidade corporal em relação com a musicalidade da música, o encontro entre as duas, a oposição e a coincidência entre elas;
  • A modulação das dinâmicas;
  • A abertura/dilatação do espaço, a mobilidade;
  • A sensibilização do trabalho com o objeto: perceber e respeitar ou subverter o tempo do inanimado, criar relação dialógica com a linguagem não verbal das coisas, lidar com o imprevisto, com a independência, com o temperamento dos objetos. Manipular e se deixar manipular por ele, guiar e ser guiado por aquilo que se guia;
  • Compor em tempo real com elementos cênicos e coreográficos pré investigados.
  • Ampliação de vocabulário por meio de estímulos orgânicos do corpo: respiração, articulações, peso, olhar, etc.

Camadas de estudo, de interesse, de busca que não são em nada estanques. Que se cruzam, atravessam-se, interferem-se, retroalimentam-se. Para as quais a abordagem e o tempo que estamos investindo nelas serão modificadores tanto do espetáculo, quanto da própria sensibilidade e corpo dos intérpretes para toda sua vida (vidas) como movedores. A cada encontro, Júlia e Daniel são sacudidos (sacudidos, não, pois não me interessa sacudir para fazer tudo cair), são “triscados” por coisas que, da superfície, da epiderme até os ossos, passando, certamente pelo intelecto (porque os dois se permitem pensar muito o pensamento complexo que o movimento é) modificam o que eles são em graus sutis que se acumularão até gerar um grande derretimento das “resistências”, um brotar úmido das inteligências (corporais, afetivas, racionais), uma generosidade das relações (corpo papel+corpo bambu+corpo Julia+corpo Daniel), uma apropriação sem medo dos espaços (os próprios e os circundantes), uma escuta constante das sutilezas e trovoadas do tempo.

(Édi Oliveira)