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Vin\co | temporada 16 a 19\05\2019 | Espaço Cultural Renato Russo – 508 Sul

Lindas fotos de João Saenger para a temporada do espetáculo Vin\co:

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Vin\co no MID

Vin\co estreou no festival MID-Mostra Internacional de Dança, no dia 26 de abril, no Galpão do Espaço Cultural renato Russo da 508 Sul.

As fotos são de Nytiama Macrini.

A pré-estreia no MID foi importante para perceber o todo do espetáculo e perceber os ajustes e modulações a serem feitos em todas as camadas de encenação: coreografias, luz, trilha, interpretação, etc. para a estreia da temporada que aconteceria do dia 16 ao 19 de maio, no mesmo espaço.

MIRÍADE SONORA

Euler Oliveira criando no ensaio de vin\co.

A trilha sonora original do espetáculo vin\co está sendo criada paralelamente ao seu processo criativo.

O músico Euler Oliveira está preparando uma trilha rica em sonoridades “orientais” e “ocidentais”, timbres que nos conduzem para um imaginário cultural diverso e miscelânico. Força e sutileza nas nuances sonoras, indo da limpeza dos silêncios e da delicadeza das cordas do violão à pungência do sons cheios do berimbau e o cortante metálico de sons eletrônicos.

Uma especificidade da composição dessa trilha é a presença constante de Euler nos ensaios, o que me permite, enquanto diretor, trocar diretamente com ele no próprio momento da criação do espetáculo. Isso nos proporciona cumplicidade entre criação de trilha e processo criativo coreográfico, maior rapidez na definição das nuances, climas e qualidades sonoras buscadas para o trabalho, e a presença de um músico tocando ao vivo em nossos ensaios, o que sempre traz uma atmosfera viva e estimulante ao processo.

Em breve vin\co estreia, e vamos poder desfrutar do resultado final da criação de Euler, uma miríade sonora cheia de perfumes do mundo.

Euler Oliveira criando no ensaio de vin\co.

(Édi Oliveira)

Linhas, volumes, ângulos.

Roustang Carrilho

Tendo como referência os materiais cênicos e de movimento pesquisados até aqui, o processo criativo de vin\co pede, para o seu figurino, conexão com certas noções e princípios presentes na concepção desse espetáculo que prima pela plasticidade e simplicidade – linhas, volumes, ângulos, geometria, orientalidade, parcimônia, leveza, dobras, vincos, pregas, calma, silêncio, urbanidade, sutileza, ar, texturas, etc.

Para elaborar esse figurino conectado à atmosfera do trabalho, convidei o cenógrafo, figurinista, diretor, ator (e tantas outras polivalências) Roustang Carrilho. Figura desejada, demandada e, provavelmente, o primeiro nome a ser pensado na cidade quando se fala na criação desses dois fundamentais domínios da encenação teatral: cenário e figurino.

Conheço o trabalho do Roustang de longa data, desde criações dele para os grupos Andaime cia. de teatro, Coletivo Antônia, Instrumento de ver, até concepções para trabalhos dos quais fui intérprete ou que foram dirigidos por mim, como o cenário dos espetáculos “2” (2008), de Giselle Rodrigues, Perfume de açougue (2010) e Fio a Fio (2015), este último dirigido e concebido por mim em parceria com Giselle Rodrigues (com quem Roustang já colaborou também bastante), e para o qual ele fez cenário e figurinos de uma coesão e unidade admiráveis, em total cumplicidade com a concepção do espetáculo e com o pensamento e desejos dos diretores, o que acabou resultando na merecida premiação, em 2016, nas categorias melhor figurino e melhor cenografia no Prêmios Sesc do teatro Candango, do qual, aliás, ele acumula premiações e indicações.

O que me atrai no trabalho desse artista é a assertividade das escolhas, cúmplices de uma compreensão rápida e de uma capacidade de escuta dos desejos e necessidades daquilo que um espetáculo e seu tema pedem. Em seus cenários e figurinos os materiais, as formas, as cores, as quantidades sempre se justificam e sempre significam em um conjunto sígnico, simbólico, concreto e metafórico na rede semântica e poética do pensamento do espetáculo para os quais foram criados, o que resulta em espetáculos visualmente fortes, seja pela simplicidade, seja pela complexidade ou pela ousadia de certas escolhas.

A sensibilidade do olhar e da mente criativa de Roustang serão essenciais para a atmosfera de vin\co. Certamente teremos mais um figurino lindo para contemplar.

Que venha vin\co.

Édi Oliveira.

Mais do primeiro ensaio aberto.

Foto: João Saenger

O fotógrafo João Saenger foi o nome escolhido para fazer as fotos de registro das sessões de apresentação de vin\co, e as fotos de toda a arte gráfica para a divulgação do espetáculo. Acompanho o trabalho do João como colaborador do Instrumento de ver, para quem ele fez fotos incríveis, e sempre tive vontade de experimentar o olhar que ele lança sobre os trabalhos.

Pois bem, ele já começou a registrar o processo, fazendo fotos lindas do primeiro ensaio aberto , ocorrido no dia 19/12/2018.

Vejam algumas:

Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger

Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger
Foto: João Saenger

Entre Haikais e Silêncios

Essa semana, no dia 08/02/2018, no Galpão do Instrumento de Ver, na Vila Planalto (DF), o processo criativo do espetáculo vin\co, do dançapequena em parceria com o Instrumento de ver, vai ter a honra de receber a colaboração, a provocação da artista, antropóloga, Doutora e alquimista dos cheiros e das maneiras amorosas de falar Rita De Almeida Castro, juntamente com Felipe Castro Praude. Serão quatro horas (9h/13h) de um encontro certamente enriquecedor, onde serão abordadas questões caras ao processo de vin\co, como a presença do sensório, da sensibilização da presença, da dilatação do tempo, da necessidade e expressividade da pausa, tudo permeado pela presença poética do Haikai.

Organicidade abstrata\ Abstracionismo orgânico\

Acima: ensaio vin\co|Embaixo: obra de Tomie Ohtake

A obra da artista japonesa naturalizada brasileira Tomie Ohtake (1913-2015), sempre me provoca arrebatamento. Seja quando a vejo ao vivo, em alguma sala de algum feliz museu que abrigue alguma de suas obras, seja quando vejo imagens na rede.

O abstracionismo informal da artista, onde suntuosidade e parcimônia coabitam, já atiçou muitas vezes o bicho da criação que rói constantemente meus desejos de artista, mas, por diversas questões, ainda não me sinto pronto/apto/digno de abordar uma obra tão tocante, para mim, em um espetáculo, por exemplo.

No entanto, nos últimos ensaios de vin\co, a memória, o imaginário, uma intuição da obra de Ohtake têm perpassado, em lampejos de imagens, os experimentos que temos feito em estúdio. O que podem confirmar as fotos que aqui posto junto ao texto.

Pontuo (precavidamente, de modo a não gerar expectativas deslocadas) : o espetáculo não é sobre a obra de Tomie, mas sobre um imaginário plástico e abstrato que possa surgir a partir da inspiração no objeto/obra/criatura origami, incluindo, nesse imaginário e em sua narrativa plástico-abstrata-sensorial, os desdobramentos poéticos que origami proporciona.

No processo de pesquisa para vin\co, o material de onde surge todo origami – o papel, tem sido uma presença persistente, desejada, atritada, acariciada, investigada, manuseada sempre em um corpo a corpo onde escuta, respeito, contemplação e diálogo tem se estabelecido entre ele e os intérpretes Daniel Lacourt e Julia Henning. E é nesse corpo a corpo, experimentado e descamado em várias camadas e de vários modos, que as analogias entre a obra da artista nipo-brasileira e as formas que surgem no processo criativo do espetáculo se deflagram.

Esculturas abstratas que respiram, arcos, curvas cheias de texturas, volumes, pesos, espessuras. Vazios cheios, silêncios ruidosos. A simplicidade frondosa dos detalhes e das minúcias, a complexidade do pouco, do quase nada. O movimento que se afirma pela pausa, e a outra via, a pausa que se alimenta do que move.

O origami tem sido motivador da pesquisa cênica e de movimento de vin\co por meio de suas características constitutivas, tais como, apenas para citar algumas: simplicidade, leveza, delicadeza, equilíbrio, geometria, parcimônia, volume, tensão entre peso e leveza, complexidade e sobriedade, cheio e vazio, etc. Elementos igualmente presentes nas esculturas e pinturas de Ohtake, que permitem os lampejos de analogia entre elas e as criaturas, as obras fugazes e instantâneas, as existências de fôlego breve e de fala sibilina e tonitruante que surgem nas experimentações de vin\co.

É muito claro para mim que a obra de Tomie não entrará como um outro viés motivador na concepção do espetáculo, no entanto, será sempre inevitável silenciar a memória afetiva que ela me provoca a cada vez que uma figura abstrata e orgânica surgir no corpo a corpo entre o papel e os intérpretes. A obra de Ohtake sera então, espero, sempre um sopro, quiça um sussurro de retorno constante ventilando a poética de vin\co.

(Édi Oliveira)

Linha

O bambu surgiu no processo criativo de vin\co carregado pelas mãos da Julia.

Na semana anterior eu havia proposto a ela e ao Daniel que trouxessem algum elemento que, racionalmente ou intuitivamente, eles quisessem explorar e conectar com as abordagens e materiais já surgidos na investigação até então.

E foi aí, que ele apareceu.

Uma linha reta. Horizontal. Vertical. Diagonal.

Algo entre o verde e o dourado. Anelado de nós. Liso. Poroso. Silencioso. Ruidoso.

Um cheiro de orientalidade. De natureza. De bosque. De floresta.

Um ingrediente do papel. Cheio de celulose. Cheio de pose.

Linha. Linhas.

Os origamis são encontros de linhas que unhas vincam.

O bambu veio para nos apresentar a delicadeza. A sutileza do equilíbrio. A inevitabilidade dos desequilíbrios. A simplicidade da presença. A escuta do que já é.

O bambu veio nos ensinar a apropriação do que já está, e a dilatar, a esperar, a contemplar, a acalmar, a desfrutar o acaso e a aceitar a queda.

O origami é uma existência criada de simplicidade, sutileza, parcimônia, equilíbrio, leveza, poesia. Pois em vin\co o bambu é, também, uma importante analogia dessas qualidades.

O bambu transformou os corpos do Daniel e da Julia. Está transformando.

Os três dançam juntos. Um diálogo de corpos delicado e respeitoso que desliza em linha contínua e curva no espaço e no tempo. O Daniel se acalma quando dança com ele. A Julia sereniza, fica límpida. As mão se diluem em relaxamentos. O olho pisca mais lento. Algo cai. Não é grave. É certo que cairia. A quede merece respeito. A queda ecoa mesmo quando já passou, e reverbera na imaginação do tímpano.

O bambu risca. Desenha. Caracóis na areia e no céu. Circunvoluções abstratas, etéreas, imaginadas. O jardim japonês e seus caracóis.

O bambu é o reto.

É vinco móvel.

Mas também é não industrial. É a China. É o Japão. É o Brasil. É a UnB.

Mas também é o conector. É o ponteiro. É o pêndulo.

Mas também é o bosque. É a seta. É o traço.

O bambu é presença.

Ele ensina presença, porque a convoca.

(Édi Oliveira)

Ser triscado…

Entidade surgida no processo criativo do espetáculo vin\co.

Logo nos primeiros dias úteis de 2019, depois de alguns dias de repouso, retomamos, no dia 7 de janeiro, as pesquisas e experimentações para o espetáculo vin\co.

Os encontros, nesses dias, acontecem no espaço Instrumento de Ver. Um galpão que nos proporciona a estrutura e a privacidade necessárias para esses primeiros encontros de retomada de trabalho, onde, mais que pensar em estruturar o espetáculo ou trabalhar as coreografias ou estruturas de improvisação visando a construção de cenas, retomamos visando um trabalho de sensibilização dos intérpretes, de conscientização de algumas chaves para lidar com os materiais que estamos buscando e com os quais já estamos lidando e sentindo necessidade de entender, aprofundar, fortalecer. Coisas como:

  • a presença do intérprete, sua segurança, sua autonomia;
  • o foco (olhar) como condutor do olhar do público, como orientador da tridimensionalidade do espaço da cena e como deflagrador de texturas, sensações, relações, etc;
  • A musicalidade corporal em relação com a musicalidade da música, o encontro entre as duas, a oposição e a coincidência entre elas;
  • A modulação das dinâmicas;
  • A abertura/dilatação do espaço, a mobilidade;
  • A sensibilização do trabalho com o objeto: perceber e respeitar ou subverter o tempo do inanimado, criar relação dialógica com a linguagem não verbal das coisas, lidar com o imprevisto, com a independência, com o temperamento dos objetos. Manipular e se deixar manipular por ele, guiar e ser guiado por aquilo que se guia;
  • Compor em tempo real com elementos cênicos e coreográficos pré investigados.
  • Ampliação de vocabulário por meio de estímulos orgânicos do corpo: respiração, articulações, peso, olhar, etc.

Camadas de estudo, de interesse, de busca que não são em nada estanques. Que se cruzam, atravessam-se, interferem-se, retroalimentam-se. Para as quais a abordagem e o tempo que estamos investindo nelas serão modificadores tanto do espetáculo, quanto da própria sensibilidade e corpo dos intérpretes para toda sua vida (vidas) como movedores. A cada encontro, Júlia e Daniel são sacudidos (sacudidos, não, pois não me interessa sacudir para fazer tudo cair), são “triscados” por coisas que, da superfície, da epiderme até os ossos, passando, certamente pelo intelecto (porque os dois se permitem pensar muito o pensamento complexo que o movimento é) modificam o que eles são em graus sutis que se acumularão até gerar um grande derretimento das “resistências”, um brotar úmido das inteligências (corporais, afetivas, racionais), uma generosidade das relações (corpo papel+corpo bambu+corpo Julia+corpo Daniel), uma apropriação sem medo dos espaços (os próprios e os circundantes), uma escuta constante das sutilezas e trovoadas do tempo.

(Édi Oliveira)

papel é uma prova

Papel não é só planície que, obediente, horizontaliza-se sobre o reto da mesa.

Papel é um corpo quieto que se agita de pausas. Exoesqueleto esguio de si. Cálcio poroso de molezas e firmeza. Convite incessante dos tateamentos.

Papel é coisa. E coisa manda na gente. Como os acasos e as surpresas que nos visitam sem bilhete de aviso em papelote.

Para as anotações, reflexões, delírios e rastros/riscos do processo de pesquisa, e criativo e emotivo e intuitivo de vin\co, escolhi um caderninho azul pastel que havia comprado anos antes em uma lojinha especializada em coisinhas de papel em Paris. O caderno me esperava para usos e preenchimentos. Eu, que estou pleno da consciência de que anotar, registrar com a palavra lúcida ou translúcida, orgânica ou automática, é importante para fincar uma memória e um pensamento do processo, anoto muito pouco. Mas, para o vin\co, tenho me esforçado. E, nesse caderno azul pálido, rabiscos têm registrado riscos, desenhos têm testemunhado devaneios, pontos de interrogação têm significado espantos, e os de exclamação, dúvida. Listas têm organizado os fragmentos, ou proposto a lucidez de uma outra desordem. Enfim, o caderno acabou. Foi substituído por outro de capa plástica, azul vivo, festivo, forte.

Mas, voltando ao primeiro de capa porosa azul aguado, ele foi responsável por uma dessas delicadezas do inesperado que, por vezes, numa ingenuidade de um desejo positivo, pode parecer um sinal de que o universo confabula em nosso favor, de que um concílio de energias amistosas vai fazer tudo “dar certo”, de que algo nos conduz gentilmente na direção do êxito. Já não mais encaro o inesperado com inocência, mas também não desconfio dele, não chega a tanto. Mas sempre que algo semelhante acontece, é como uma fresta de delicadeza no sóbrio dos dias, um agradinho do destino no duro que toda criação também pode conter.

A que me refiro? Estou falando do fato de que, depois de dias explorando com Júlia e Daniel os moles do papel, suas resistências e pesos, sua desobediência, seus sussurros secos de coisa que dobra. Depois de dias maltratando-o em amassamentos, impondo-lhe rasgos e fissuras, e, por meio desse corpo a corpo entre materialidades não coincidentes, entendendo que o papel é uma coisa, mas é coisa como a gente, só que diferente. Depois desses dias de ludicidade e diálogo entre os corpos e a coisa lisa, acontece que, por acaso, descubro, na última página da última folha do meu caderninho azul tísico, o texto que podemos ler na imagem que acompanha esta postagem. Um espelho, um resumo, um tratado, um poema sobre tudo o que estávamos descobrindo que o papel é, na beleza sonora e gráfica de línguas conhecidas e desconhecidas por mim.

Sempre esteve lá. Na última página da última folha do primeiro caderno. Escondido. Desconhecido. Calado. Esperando. Simbólico. Premonitório. Generoso.

Mostrei, ao Daniel e à Júlia, que também ficaram pasmos e encantados com essa sutiliza dos objetos que se abrem, e que, sem que os abram até o fim, escamoteiam, até quando não é mais possível poupar ninguém da visão, da poesia feita de tempo semelhante àquela das pétalas que se desidratam e se empalidecem durante os anos dentro das páginas de um velho livro. Porque o dia sempre chega em que a página será tocada, por quaisquer digitais, e será lida, ou contemplada em seu vazio, de branco, pardo, colorido, sem nada que diga: CHEIO.

que diga: VAZIO.

PAPEL VOA

PAPEL É VISÍVEL

PAPEL É UMA PROVA

PAPEL É AVENTURA

PAPEL É FORTE

PAPEL É INSTRUMENTO

PAPEL É UM MISTÉRIO

PAPEL É FANTASIA

[…]

(Édi Oliveira)