Chamei o Shamah…!

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Leonardo Shamah em “Fiorde: meu lugar é o fim” 2018


Há pessoas que a gente sabe que sempre será interessante ouvir. E que sempre usarão as palavras com o cuidado e a atenção necessária para que o dito fique ecoando, reverberando, incrustando o corredor impalpável entre os tímpanos e o intelecto. Leonardo Shamah é dessa sorte de criatura. Uma sensibilidade aguçada, crítica, problematizadora e, no entanto, delicada na hora de expor o que se burilou na sua caixa. Poético. Subjetivobjetivo. Denso. Fragmentado-volumoso. Ourives da polissemia. Fomentador das possibilidades tentaculares, das leituras incrustadas de setas que apontam em todas as direções, até para si e a partir de si. 

Sabendo disso, chamei Shamah. 

Como dito em uma das postagens anteriores sobre o ensaio aberto e as galerias virtuais, ele foi um dos preciosos convidados que estiveram presentes em nosso primeiro ensaio aberto do dia 19 de dezembro. Shamah assistiu, adentrou, evadiu-se, ficou, saiu, contemplou, falou. 

Falou coisas importantíssimas. Pontuais: “O olhar também é dobra”. “Não é tão abstrato”. “Eu me desliguei, e se desligar também é uma forma de estar”. 

Disse: “Eu escrevi. Pouca coisa. Vou te enviar”.

E enviou:

“Dani-Édi-Júlia,

resolvi escrever num papel, que talvez nem seja propriamente papel, mas que também é papel, pra me provocar uma experiência outra em ensaios abertos.

ensaiar e abrir.

rascunho. de experiência quem vê, participa e, nesse caso específico, dobra e se dobra diante desse trabalho tão bonito que vocês estão a criar.

tenho receio de parecer ou querer parecer formalista em escrever. mas também gosto da ideia de evidenciar o que sempre é só passagem e já se perde. nossa arte. só o instante em que acontece. ou aquilo que precisa repetir. ou o registro.

por escrito. por em escrita. por (em)/no papel.

por em palavras a experiência. com vocês. não sei por onde estamos escrevendo, desenhando, dobrando, acumulando e vivendo os papéis que somos. pedaço de árvore. folha no vento. embrulho. embalagem. caderno. resma. bloquinho. bilhete. dobradura. é tanto papel-gente. solta no mundo. escreve-caminho calçada rua estrada trilha. vamos deixando. ser papel. ser ideia. ser virtual. ser digital. mudar o toque. e vocês com essa artesania. um papel-contemplar. um papel-pensar. um papel-movimento(?ou um movimento-papel?).

movimento em pensar o origami de vocês. pensar em tópicos. palavra organizada em lista. palavra cercada de lacunas. palavra no papel em branco. palavra estruturada. palavra dobrada como a folha de papel. tentativa-vinco. palavra-vinco. palavra pra marca da dobra.

essa é uma pequena lista de papel-palavra que escrevi durante nossa conversa ao final do encontro em que estivemos a assistir vocês. 1. o ato político de dobrar. 2. o papel do papel. 3. o papel do papel-pele. 4. o papel do tempo-papel. 5. o papel do papel-memória. 6. a força de um papel-paisagem(?paisagem-papel?).

  1. dobrar é ato de articular. cria vínculo. se molda. se desenha. encaixa desencaixa. transforma volume. forma que transita. corpo duro se quebra. um é dois.
  1. acaba a margem. acaba papel. papel-continente. desenho. sobra gesto/movimento. movimento que aprecia o papel. papel que aprecia movimento. posso achar que dobro o papel. o papel pode achar que me dobra. papel-rasura. papel-lugar. papel-deleite.
  1. a mão que toca o papel é a mão que toca a pele. pele-papel. papel-pele. pele arqueológica. pele papel que envolve. invólucro. embala. balança. rasga. registra. sensível. veste-papel.
  1. no papel, o tempo. no tempo, o papel. o som do papel. o vira-página. amassa e lança. enxuga-água. o papel desliza. o papel cai. o papel parado sobre ou sob. papel que voa. papel que corta e sangra. o tempo que o papel gasta. papel-gasta-tempo. perder tempo com papel.
  1. histórias impressas. memórias impressas. sensações impressas. caminhos impressos. rotina impressa. Papel velho gastos surrado. papel vivo sombreado. papel de história sem palavra. papel que passeia fotografa expõe.
  1. diante ou dentro do papel há uma força.

não existe algo propriamente que quero dizer. nada como dardo no alvo. papel na mira. mas tanto se passa ali na conversa. tanto se fala. tanto se ôca na dança de palavra falada. me adesiva o desejo de ver avião de papel voar por dentro. sem muito. e cheio. recheio. e preenchido. página completa. sem perder os vazios. espaçamento. uma frase e outra. entre. leia.

, outras ocasiões, já falamos um pouco. a recepção. assunto amassado. rasurado. triturado. cortado fora. pra mim sempre na cola. esse papel cada dia mais urgente da arte-pedagogia. em formação social. penso, no meu, no meu, onde está o brasil. não basta ser eu que já é brasil. e talvez essa curiosidade de saber onde está o brasil, no meu, apareça do desejo-necessidade de encontrar uma plateia impossível. uma plateia-plateia. tanto, me ocorre aí também. onde está o brasil no origami? e vice versa.

interrogações. ouço memória-conversa-origami. conversa-dobradura. a palavra vincada neutralidade. neutralidade? neste tempo? o que a gente quer com isso? a gente-sociedade é tanta especificidade. fala neutralidade é tão lisura vinco-ditadura aversão fobia panfleto. imagino arte-panfleto(?panfleto-arte?). alerta. arte. anuncia. panfleto-dobradura. isso também é política.

mais importa o que eu não digo. mais importa o que não cala em.

Abraço dobrado,

Leo-Shamah-Leonardo”.


Leo é néon. Sempre ilumina umas coisinhas pra gente.


                                                                                                                     (Édi Oliveira)



 



    vin\co – vínculos de parceria e sensibilidade

    Moisés Vasconcellos e Euler Oliveira.

    O desejo de ser um diretor/encenador que entende de todas as camadas do fazer cênico me invade a cada nova montagem. Sim, acho que posso coreografar, arrisco figurinos e cenários, penso dramaturgias e modos de motivar, preparar, falar e escutar os intérpretes que trabalham comigo, e, às vezes, arrisco dançar. No entanto, há domínios que não ouso tocar, pois tenho consciência de minha inaptidão técnica, artística e conceitual sobre eles. Refiro-me à criação do design de luz e da composição de trilha musical. Duas áreas da criação artística de importância indubitável para a totalidade de um espetáculo de dança, pois até mesmo quando um espetáculo prescinde, por suas escolhas estéticas e conceituais, de recursos de iluminação e musicais, ainda assim essas escolhas refletem um pensamento consciente, complexo e, por vezes, sofisticado que resultam em estéticas onde luz e trilha foram consideradas.

    Desse modo, opto por contar com quem entende e, mais que isso, com quem possui a sensibilidade artística necessária para perceber, entender e desdobrar os pilares conceituais e poéticos de uma criação, e abertura para a troca com este leigo que vos escreve. Isso me levou, em trabalhos anteriores, a contar com iluminadores como Dalton Camargos e Marcelo Augusto Santana, dois artistas atentos e abertos às necessidades temáticas e estéticas dos espetáculos que iluminam, e com o DJ Quizzik, na montagem e edição de trilhas que contaram com seu cuidado e domínio técnico.

    No último espetáculo que dirigi em colaboração com a diretora e coreógrafa Giselle Rodrigues, FIO A FIO (2015), contamos com a luz criada por Dalton Carmargos e Moisés Vasconcelos. Este último responsável, a meu convite, pela concepção de luz de vin\co.

    E foi no processo de criação e circulação desse espetáculo, que fui percebendo o modo de pensar a luz desse artista e sua cumplicidade com as montagens que ilumina, para além da necessidade de iluminar a cena. Moisés é um criador que pensa, questiona, esmiuça, juntamente com os diretores, os universos temáticos e as possibilidades estéticas que demandam os espetáculos. Ele acompanha os processos, debate e propõe, compra para si o êxito da montagem. É um co-autor, que se interessa e se emociona com o trabalho criado, mesmo depois de “concluído”, motivado com cada apresentação. Além disso, é um iluminador premiado e de muita experiência na concepção de luz não apenas para dança, mas também para teatro e shows de música, como se perceberá em seu currículo logo abaixo.

    Para compor a trilha de vin\co, convidei Euler Oliveira. Ele criou a trilha de dois espetáculos preciosos que assisti – Voa e Bubuia, ambos do Coletivo Antônia (DF). Trilhas que demonstraram forte cumplicidade de estética sonora com os temas dos trabalhos, e uma interessante oscilação entre trilha musical e paisagem sonora, que me interessaram bastante. Por meio desses dois espetáculos, me interessei por como Euler trabalha bem com sonoridades delicadas, com um presente perfume oriental, além da sensação de um som que prima também pelos micro-silêncios, por ruídos e texturas sonoras pouco habituais. Trilhas delicadas e sutis. Tudo o que me interessa para esta nova montagem inspirada nas sutilezas do origami.

    Abaixo, o currículo de cada um desses dois artistas, colaboradores e pensadores de vin\co.

    MOISÉS VASCONCELLOS

    Moisez Vasconcellos (1977), iniciou seus trabalhos como iluminador em Brasília DF, no ano de 2001, com o projeto “Colóquio dentro de um ser” dir. James Festenseifer no teatro do CCBB de Brasília. Como designer realizou diversos trabalhos em Teatro, Exposições, Dança, Shows e óperas em diversos lugares do País. Participou do Raley da Tocha Olímpica e Paralímpica nas Olimpíadas Rio 2016 e Rock in Rio 2017. Em 2009 recebeu o Prêmio de Melhor Iluminador no Festival de Ponta Grossa – PR com o espetáculo “Flor de Beco” dir. Marcelo Alves e Débora Aquino. E em 2012 o Prêmio de Melhor Iluminador no Festival Candango de Teatro realizado pelo SESC – DF com o espetáculo “A história da Tigresa” Dir Humberto Pedrancini. Em dança realizou trabalhos como “Arena delimitada por superfície de luz” dir: Isac Araújo e “Vinil de Asfalto” Dir Edson Bezera. Em exposições realizou trabalhos de programação de iluminação e vídeo para os artistas Laurie Anderson, Antoni Gormley e Chriatian Boltanski. Foi coordenador de iluminação do Festival Internacional Amazonas de Ópera, Festival Hilaridade Fatal, coordenador técnico do Festival internacional “Cena Contemporânea” e da “Mostra interpretes criadores” da cia. Alaya de Dança. Em ópera se destaca o trabalho “Ierma” com direção do espanhol Alex Aguilhera e regência do Maestro Marcelo de Jesus (encenada pela primeira vez no Brasil). Atualmente no ano de 2018 está em circulação com o espetáculo de Dança “Fio a Fio” de Gisele Rodrigues e Edi Olivera, os shows “O Grande Encontro 20 anos” Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo, Afrofuturismo – Ellen Oléria e Primórdios – Plebe rude. E o espetáculo de teatro “Autópsia” – Dir: Jonathan Andrade.

    EULER OLIVEIRA

    Euler Oliveira é mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidad Autónoma de Barcelona, onde atuou como músico e produtor por seis anos. De volta a Brasília, segue como músico, além de coordenador técnico, iluminador, escritor, editor, revisor e fabricante de cerveja artesanal. Integra o Coletivo Antônia e tem parceria constante com a Andaime Companhia de Teatro e com o Coletivo Instrumento de Ver.
    Seus trabalhos de destaque recentes são:
    – iluminador do Festival Arranha-Céu (Instrumento de Ver – 2018);
    – iluminador na circulação nacional do espetáculo Utopia (Circênicos – 2018);
    – coordenador de Patrocínios e Recursos Incentivados do 51º Festival de Cinema de Brasília (Instituto Alvorada – 2018);
    – revisor e editor do livro Chão e Paz (Rosa dos Ventos – 2018);
    – criador da trilha sonora e sonoplasta do documentário Pena e Maracá – A encantaria do Fundo (Sauá – 2018);
    – iluminador do espetáculo A Quarta Roda (Seu Estrelo – 2018);
    – criador da trilha sonora e coordenador técnico dos espetáculos Voa e Bubuia (Coletivo Antônia – 2017/18);
    – coordenador técnico e diretor de palco do TopCufa (Rosa dos Ventos – 2017/2018);
    – coordenador técnico e diretor de palco do Festival São Batuque (Rosa dos Ventos – 2017/18);
    – técnico de luz e assistente de legendagem no Cena Contemporânea (Cena – 2017/18);
    – técnico de luz na circulação nacional do Tumba la Catumba (Tumba – 2017);
    – técnico de luz e som do Cabaré Vaudeville (Las Fenómenas – 2017);
    – músico e sonoplasta na circulação nacional do espetáculo Saci é uma Peça (Andaime – 2016/17);
    – músico e sonoplasta na circulação do espetáculo Poéticas Urbanas (Andaime – 2016);
    – técnico de luz e roteirista no espetáculo Claude Debussy – Concertos para Crianças (Naná Produções – 2016/17)
    – técnico de som e performer na intervenção Carnaval Silencioso, Brasil e Portugal ( Andaime – 2015-18).
    Com o Coletivo Antônia participou dos Festivais Primeiro Olhar 2017/18 (DF), Um Novo Olhar 2018 (SP), Prêmio Sesc do Teatro Candango – vencedor como Melhor Espetáculo Infantil (Voa – 2017) e selecionado para a mesma categoria (Bubuia – 2018), além de Palco Giratório (2017/18).
    O espetáculo Voa foi selecionado ainda para a circulação nacional do Sesc Palco Giratório (2019). O Coletivo foi ainda convidado ao Festival Visioni di Futuro, visioni di teatro (Bolonha, Itália – 2019).
    Pela Andaime Cia de Teatro, participou do Cena Contemporânea 2017 e foi convocado para a Quadrienal de Praga (Praga, República Tcheca – 2019).
    Com a produtora Sauá, foi selecionado para 8 festivais de cinema (RJ, BA, GO, SP, PB, MG e CE), com o documentário Pena e Maracá, tendo sido premiado como 2º Melhor Curta-Metragem no Festival Curta Canedo (Canedo/GO – 2018).

    (Édi Oliveira)

    Ensaios abertos e Galerias virtuais

    Foto de Sabrina Rocha

    Um desejo da equipe desse projeto é o de compartilhar o processo criativo do espetáculo vin\co em distintas frentes, não estanques, mas, pelo contrário, muitas vezes simultâneas, sobrepostas e em diálogo. Como, por exemplo, o caso dos ensaios abertos para convidados e das galerias virtuais. O primeiro são ensaios onde convidamos artistas para assistirem a uma partilha dos elementos coreográficos, cênicos e dramatúrgicos experimentados e elencados, até o momento, no intuito de exercitar a escuta e a troca com a percepção de olhares externos ao processo, e que, desse modo, podem ajudar em uma reflexão mais “isenta” sobre os materiais experimentados. Essa troca é sempre rica e salutar, no sentido de ajudar a ajustar, afirmar ou, até mesmo, modificar certos pontos de vista daqueles diretamente envolvidos na criação, além de ajudar a perceber como as propostas podem chegar até a recepção. Já a galeria virtual é a possibilidade de partilhar uma camada mais visual, pictórica e imagética do processo com os interessados em acompanhar um trajeto de pesquisa. Para isso, convidamos duas fotógrafas que estão se experimentando enquanto artistas da imagem fotográfica dentro do contexto das artes cênicas, que estão descobrindo suas linguagens, modos de olhar, subjetividades junto à captura da imagem e suas assinaturas. São duas artistas próximas do meio humano do espetáculo, amigas da equipa e colaboradoras artísticas em diversos outros projetos e situações. São a bailarina Lívia Bennet que, inicialmente, também dançaria como intérprete do espetáculo, e que, por meio da fotografia, mantém os laços de proximidade artística e afetiva com o trabalho, e a sensível artista Sabrina Rocha, que tem um olhar sempre muito poético, delicado e, ao mesmo tempo, forte, sobre os trabalhos que fotografa.

    Desse modo, fizemos um ensaio aberto às 10h do dia 19/12/2018 na Sala Multiuso do Espaço Cultural Renato Russo da 508 Sul, onde, entre outros convidados, contamos com o olhar atento e a fala crítica de artistas como Giselle Rodrigues, Ana Vaz, Fabiana Marroni, Leonardo Shamah, Shirley Farias, Mayra Moraes, Janaína Moraes e Rita Castro. Durante o ensaio aberto, Lívia e Sabrina, além do fotógrafo que fará as fotos para a arte gráfica e divulgação do espetáculo, João Saenger, fotografavam a demonstração dos materiais que eu, Daniel Lacourt e Julia Henning havíamos tocado, descoberto e investigo até aquele dia. Ao final, uma conversa enriquecedora, resultante de olhares atentos e geradora de vários questionamentos e pontos a refletir e desdobrar criticamente e criativamente, ocorreu entre os convidados e a equipe do espetáculo.

    A conversa está reverberando em mim, no Daniel e na Julia até hoje, e reverberará durante toda a continuação do processo, pois diversos pontos importantes e sensíveis ao trabalho foram nela abordados. E as fotos de Lívia Bennet e Sabrina Rocha estão expostas em galerias que se encontram ao final da página, basta rolar até o final. Desfrutem das imagens. Esperamos que elas possam instigar a curiosidade. Na continuação desse post, um pouco da percepção de cada uma das fotógrafas, sobre a experiencia de captar, com suas lentes e sensibilidades, o acontecido no ensaio aberto.

    SABRINA ROCHA: “uma eterna aprendiz”…

    Fotografia para mim é sentir junto com quem a gente tá mirando. É me colocar no lugar do outro. É colocar o olhar e o coração na mesma direção, em sintonia. É fazer poesia.

    Sobre o ensaio: foquei bastante nas roupas e nos papéis. Vi origami em tudo, apesar do espetáculo não estar necessariamente preso a isso. Nas dobras da calça, nas dobras da blusa, no balançar da saia, no equilibrar do bambu na cabeça. Era como se em um momento tudo fosse um, o corpo, a roupa, o papel, o bambu, e o sentimento. Sentimento dos bailarinos e dos objetos. Era como se os papéis tivessem vida. Naquele movimento cheio de barulho. Um grande origami.

    Lívia Bennet:

    É como um ritual. Chegar no espaço, posicionar a câmera e ver através das lentes um outro ritual, musicado e cheio de detalhes.
    A cor me agrada. Os corpos ainda se reconhecem. Naquele espaço Eu me reconheço através da câmera que observa aquele espaço.
    Mesmo com os sons dos corpos e a própria música, ainda assim é silencioso. Fico atenta a todo movimento. O trabalho me desperta curiosidade. Às vezes vem até mim um leve sorriso. O meu próprio sorriso. Um sorriso de admiração. Um sorriso por estar ali, registrando aquelas sutilezas.
    Muitas vezes pensando: e por que não uma quebra abrupta para me tirar desse estado?
    Poderia me despertar outras sensações que minhas lentes ainda não puderam captar.
    Permaneço praticamente no mesmo espaço. Me movo, e tento fazê-lo sutilmente, nem sempre consigo.

    (Édi Oliveira)

    Corpos têm vincos

    Júlia Henning investigando os ângulos .

    Há muito tempo quero investigar as dobras do corpo. As articulações, dentro da engrenagem corporal (músculos, ossos, tendões, ligamentos, órgãos, etc.), sempre atiçaram meu interesse pelo corpo em movimento. Dos espaços entre as falanges, às coxo-femurais, até ao maxilar, passando pelos deslizamentos entre as vértebras e as quinas dos cotovelos e joelhos, o nosso corpo se articula, fragmenta-se, segmenta-se, move-se. CORPOS TÊM VINCOS. Tenho um prazer imenso, ainda que dentro das especifidades de meu corpo, e sobretudo por isso, em vincar o espaço entre o antebraço e o bíceps, entre a coxa e as costelas, entre o peito do pé e a tíbia. Marcar, sulcar, desenhar, a cada repetição de dobradura, as linhas finas que mapeiam os entres da minha estrutura. Riscar as rugas, os veios, os traços. A dobras do bigode chinês, as aspas entre as sobrancelhas, as letras M, ou W, perfeitas , sulcadas pelo abrir e fechar de mãos.

    O CORPO SE VINCA PORQUE VIVE.

    O GRUPAL

    Foi no Grupal, um grupo de investigação do movimento, sob minha orientação, do qual participavam Daniel Lacourt e Julia Henning, além de outros movedores, que experimentei pela primeira vez a imagem do Origami como motivador de movimentação. Os movedores experimentaram, em uma proposta intuitiva de investigação, a possibilidade de moverem-se a partir da ideia de buscar as diversas dobraduras do corpo, desenhando ângulos e permitindo ao corpo acentuar suas geometrias retas, de linha e quinas.

    Após esse experimento detectamos que ali havia algo para ser mais investigado, mais desdobrado, mais dobrado, mais esmiuçado na direção de uma possível dramaturgia a partir dos movimentos do corpo em diálogo com a imagem poética do Origami. O Grupal se desfez, infelizmente, mas a imagem de um Corpo-Origami permaneceu pousada em meu imaginário. Um Tsuru branco voando na minha subjetividade. E foi então que anos depois, lancei a ideia ao Daniel e à Júlia, de passarmos por um processo de pesquisa e criação, visando a montagem de um espetáculo, não sobre o Origami, mas assumidamente inspirado em sua figura precisa, simples (e complexa), leve, frágil (e firme), lúdica, plástica e poética. Também convidamos a bailarina Lívia Bennet que, pela necessidade de cuidar de um dos seus vincos, não pode seguir conosco a pesquisa. Lívia foi cuidar dos joelhos, para poder continuar contando com essa dobradura para dançar tão lindamente quanto sempre dançou.

    Escrevemos um projeto e fomos contemplados com o apoio/patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), da Secretaria de Cultura do Distrito Federal. E assim, com esse apoio, estamos mergulhados nessa pesquisa plástica, estética, sensorial, poética, contemplativa e instigante, buscando entender do Origami sua sutiliza, tentando compactuar de seu vazio cheio, tentando vestir sua geometria, de modo que caiba em nós como uma roupa confortável de corte preciso.

    O caminho é longo, instigante e prazeroso. Cheio de camadas a desdobrar, de linhas a escolher e a seguir, de bordas a nortear. Mas em breve teremos uma estrutura edificada para compartilhar, o nosso espetáculo-Origami VIN\CO , que, como uma esfinge calma de papel, apenas pedirá: CONTEMPLE-ME.

    (Édi Oliveira)

    dobrar\VINCAR\pausar

    Daniel Lacourt – escultura em músculo e papel.

    ORIGAMI é a técnica japonesa secular da dobradura para dar formas figurativas ou abstratas a uma folha de papel. Do verbo ORI (dobrar) e do substantivo KAMI (papel), resultou o termo que denomina a arte de vincar, manipular, torcer, dobrar até surgirem os mais diversos seres e objetos nascidos da complexidade do entrecruzamento das linhas e da sobreposição das figuras geométricas (retângulos, triângulos, quadrados, losangos) resultantes de diversas camadas de dobraduras.

    Aves, aviões, girafas, estrelas, flores, caracóis, caixas, esferas, raposas, cães, camelos, cavalos. Do Origami tudo se origina. Com o Origami tudo se imagina. Da carícia da ponta dos dedos sobre a folha, dos deslizamentos precisos e firmes de unhas, das pressões de palma de mão, algo se equilibra, se arma, se ergue, existe. A nova existência se contempla: precisão/simplicidade/concisão/leveza/equilíbrio/sutileza/delicadeza.

    Fazer um ORIGAMI é uma experiência de pausa. De aquietar, acalmar os tempos, desacelerar os modos, silenciar os barulhos e escutar os pequenos ruídos. Depois, deslumbrar-se com a estrutura de papel que é seu próprio esqueleto e musculatura. Contemplar a imobilidade da mobilidade dos desenhos triangulares, das linhas multidirecionais que se encontram em pontas, e se unem para ser algo.

    Fazer um origami é manusear o vazio. Um papel (branco, pardo, de cores) liso, sem marcas, amarrotamentos, plano e pleno de retidão e certo de sua horizontalidade. Duas mãos móveis, delicadas e firmes, articuladas e curiosas, que averiguam os moles e os duros do volume deitado sobre a mesa. Tudo sempre começa pelo encontro, que apenas um vinco permite, entre uma face e outra da folha. Um sobrepor de abas, um beijar de planícies, um dividir que duplica. Isso repete-se incontáveis vezes, nas mais diversas direções e ângulos. Num abrir e fechar misterioso e profuso de bordas.

    origami é arquitetura. Edificação. Ritual de gênese, de criação, de devir forma, de devir coisa, de devir outra coisa. De existir na comissura entre a força e a fragilidade, entre o complexo e a simplicidade, entre o banal e o sublime. De existir na realidade do imaginado.

    (Édi Oliveira)